Iniciando sua fala com “o mundo precisa da verdade para superar seus desafios”, o presidente Jair Bolsonaro abriu a 75ª edição da Assembleia Geral da ONU, no entanto, diferentemente do que esse pequeno trecho poderia indicar, seguiu em um discurso permeado de desinformação, falácias e críticas aos seus opositores.
Após trazer, em 2019, conspirações e ataques à suposta onda comunista cujo fim havia sido estabelecido após sua eleição em 2018, os analistas acreditavam que Jair Bolsonaro optaria por um discurso menos agressivo e mais ameno, sobretudo considerando-se a imagem negativa que conquistou no exterior devido à condução da Pandemia de COVID-19 no Brasil e aos desmatamentos recordes nos biomas nacionais, não se restringindo à Amazônia. Essas especulações, todavia, não foram exitosas. É de se esperar que um Presidente ou Primeiro-Ministro destaque os trunfos do país que representa em um discurso como o realizado perante a Assembleia Geral da ONU, afinal, políticos como são, devem buscar a propagação de uma imagem positiva não apenas de seu Estado, mas principalmente de seu Governo. No entanto, o que não se espera é a negação de dados comprovados e divulgados por cientistas e jornalistas diariamente que atestam um fato inegável: o Brasil pintado por Bolsonaro nesse dia 22 de Setembro de 2020 em suas palavras não é o Brasil em que atualmente se vive.
Em primeiro lugar, o Presidente da República buscou esquivar-se da atribuição de qualquer culpa relativamente ao grande número de casos e mortes por COVID-19 no país de março até o recente mês, atribuindo a responsabilidade, ainda que indiretamente, ao STF, uma vez que o Tribunal teria destinado aos Governos Estaduais a tarefa de desenvolver políticas de contenção à Pandemia. O que o Presidente parece esquecer, todavia, é que a saúde deve ser atribuição compartilhada de todos os entes da Federação, cabendo aos estados desenvolverem apenas políticas destinadas às especificidades regionais. Esquece ainda de afirmar que, grande parte da justificativa dessa “atribuição de responsabilidade” aos estados e municípios vem em um contexto em que o Governo Federal negava as proporções que a Pandemia poderia tomar, omitindo até mesmo as manifestações com aglomerações da qual participou.
Por outro lado, não esquece de citar o papel do auxílio emergencial na vida dos milhões de brasileiros que se encontraram em estado de total desesperança diante do desemprego súbito e da redução da produtividade resultantes da paralisação das atividades econômicas. Destaca, portanto, como o auxílio foi um dos maiores – se não o maior – programa de assistência do mundo durante a Pandemia. Entretanto, omite a parte em que seu Governo, especialmente o Ministério da Economia, personificado em Paulo Guedes, opôs inicialmente a tal política de assistência, a qual, efetivamente, apenas ganhou corpo como resultado da pressão no Congresso Nacional.
Um Brasil completamente diferente também foi pintado por Bolsonaro ao referir-se à atual situação ambiental do país, a qual levou à França a declarar, na última sexta-feira (18 de setembro), que não assinaria o Acordo entre União Europeia e Mercosul. Nas palavras de Bolsonaro, o Brasil possui a melhor política de proteção ambiental do mundo e crimes ambientais não são tolerados em seu Governo. O que os dados atestam, na contramão, é a destruição e desmatamento crescente do Pantanal, Amazônia e Cerrado devido à invasão de áreas protegidas, terras indígenas e queimadas. Mas como diria o próprio presidente, a Floresta Amazônica é uma floresta úmida, na qual não ocorreriam incêndios, sendo estes causados por “indígenas e caboclos” da região. Como os indígenas conseguiram aumentar os incêndios na proporção em que estão hoje é o que fica a ser questionado ao presidente.
A fala ainda destaca outros pontos que estão sustentados em meias verdades e desinformações. O Presidente destaca, citando o único líder referenciado em seu discurso, a política de recepção de imigrantes venezuelanos no Brasil, a qual recebe o apoio do Governo Trump, ainda que as fronteiras tenham sido totalmente fechadas para esses indivíduos durante a fase mais crítica da Pandemia da COVID-19 no Brasil. Fala em acolhimento das opiniões de especialistas quando elaborando políticas para o enfrentamento da doença, mas não cita a saída de dois médicos do Ministério da Saúde, sendo por fim substituídos por um militar. Cita a importância da verdade no combate à Pandemia, no entanto oblitera-se das fake news compartilhadas por seus apoiadores, incluindo seus filhos, em redes sociais. Diz apoiar a ciência, mas não se lembra de quando sustentou o uso da hidroxicloroquina, mesmo afirmando que sabia da inexistência de comprovação científica de sua eficácia no combate ao coronavírus.
Por fim, fala ainda de Direitos Humanos, enquanto sua Ministra na pasta, Damares Alves, está sendo acusada de vazar informações acerca do caso da menina de dez anos que havia sido estuprada e, ao tentar realizar um aborto legal, foi perseguida por religiosos fundamentalistas (mas isso, todavia, parece que não seria um problema para o Presidente, afinal, como afirma, “o Brasil é um país cristão e conservador”).
Essa é apenas uma breve retomada dos pontos mais expressivos do discurso realizado nessa manhã. É certo, como já dito, que líderes políticos tentem fazer a propaganda de seus países em reuniões internacionais. É certo que busquem apoio e confiança externa. No entanto, o que ouvimos hoje foi um prelúdio de campanha política que, todavia, não se sustenta nos fatos, dados e acontecimentos. Jair Bolsonaro tentou ilustrar um Brasil que se desenvolve, inova-se e cresce em destaque na geopolítica internacional, mas não se esqueceu que, na atual era em que informações estão disponíveis na mão de milhões de indivíduos, tudo é colocado em dúvida, pronto para ser falseado. E o que hoje observamos é isto: a verdade que tanto buscou sustenta-se em mentiras e desinformações. Diferentemente do que fala, não é a mídia que está tentando impor o pânico entre os cidadãos, mas a realidade na qual vivem que já há muito o fez.
Texto: Melina Coelho Garcia – Diretora-Geral do GEDAI.

